A P®O(-)ÉTICA DO SER-MOMO

 

Simone Curi - UFSC

 

O senhor saiba:

em toda vida pensei por mim mesmo,

forro, sou nascido diferente.

Eu sou é eu mesmo.

Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa

 

Guimarães Rosa

 

 

Eu!reka! ou como se tornar aquilo que se é

 

A visão súbita (intuiri) parece ser sempre o ponto de partida do conhecimento, a própria ciência (epistemologia) reconhece uma intuição adivinhadora ou inventiva, a do sábio, do artista, do cientista quando repentinamente descobrem uma nova hipótese, um tema original, uma invenção. Expresso por Poincaré: “Com a lógica se demonstra, com a intuição se inventa...”[1] Dessa forma, a lei científica se revela não mais que um fato geral, abstraído da experiência sensível, pela mediação daquela faísca de original intuição explicativa.

Já a ciência, para Bergson, é apenas um dado de evolução lógica, desde o estágio anterior que antecedeu à inteligência, a matéria com vivacidade empregou tanto empenho e rigor que só resultaria em método. Passo irreversível, resultado positivo da lei científica. Assim a inteligência sempre com-prova ser a faculdade de adaptação do homem ao mundo, ela determina organização e ação interessadas, utilitária (a tecnologia é êxito desse homo faber, é produto de manipulações das proto-formas do pensamento mecânico).

A inteligência sempre quer resultados, interroga, cerceia possibilidades, vai de uma simultaneidade à outra, negligencia no entanto o que se passa nos intervalos, com métodos apenas destinados a alcançar o que está feito, não sendo capaz de seguir o movimento, a vida das coisas. A vida é movimento, em seu crescimento, na Evolução Criadora, encaminhou-se para três direções: instinto, inteligência, intuição. Três formas possíveis de olhá-la. Se filosofia e ciência correspondem a duas direções divergentes do pensamento, é porque a primeira está atenta ao espírito, à intuição, já a Segunda tem sua atenção voltada à matéria, à inteligência. Para os dois casos, no entanto, experiência significa consciência.

Mas se o entendimento desabrocha, exterioriza-se, em relação a ela mesmo, é na medida em que vê a coincidência entre as exterioridades das coisas; no entanto que, a compreensão espiritual é um voltar-se para si, reassumir-se, estendendo-se na própria interioridade. Para Bergson, portanto, intuição significa primeiramente consciência, consciência imediata, visão que dificilmente se se distingue do objeto visto, conhecimento que é contato e mesmo coincidência[2]. Enquanto o movimento inteligente é centrífugo, empurra para o objeto de exterioridade, o movimento intuitivo é centrípeto, joga para dentro.

Mesmo quando o movimento implica um conciliar-se com um outro, mesmo que nessa viagem se produza um profundo descentramento, ou seja, reencontro, ou fuga, de um estado anterior, de um eu, de um lugar, de condições amorfas, ainda assim é na espacialidade da inteligência que o ser se elabora, através de suas representações. Movimento ligado à necessidade de ação (com, contra objetos) sobre as superfícies, pelas exterioridades do mundo. Realizado em grau máximo ou mínimo, o movimento compele à idéia espaço-temporal da experiência. Nesse caso, multiplicidade significa extensão, dispersão no fora, enquanto que para a intuição, multiplicidade é concentração, na in-tensão do dentro. Só a intuição parte do movimento e o percebe como a própria realidade.

Essa experiência profunda da realidade vem do espírito – sempre criador. Então, o pensamento da verdadeira imagem, aquela que faz o ser coincidir-se consigo mesmo, mais envolve duração que localização, mais a viagem que o relato. A duração (das coisas, a nossa mesma) é atributo da existência e não da essência. Mas enquanto duramos, compartilhamos a experiência da eternidade, não somente na experiência vivida, mas na experimentação de outras durações, superiores, inferiores, adjacentes, tangenciais – assim ampliando, ultrapassando, a nossa própria duração – ínfima partilha de um ‘sem antes, nem depois’ divino. Duração é devir que dura, mudança que é a substância mesma. O tempo por ela vivido é tempo cinematográfico, não escorre, mas coexiste na repetição de planos, não como elementos sobre único plano, todo passado se joga e se repete, ao mesmo tempo, no presente.

O movimento de reencontro que se procura descrever, como método filosófico, é contudo ainda de natureza experimental. Em linhas gerais, reclama um deslocar de atenção, de direção habitual do pensamento, da consciência do fora à intensificação da consciência de dentro, o que não diz respeito a apego pessoal, e sim a pura coincidência, do ser com a idéia, idéia que está aí, já antes como depois de nós. Instante de captura da autenticidade, enquanto duração real, acontece num indiscernível tempo, abortando toda noção de espaço (exterioridade sem duração). Mas junto à afirmação da intuição como conhecimento, acompanham as algumas dificuldades 1. da apreensão e expressão de movimentos e pensamentos vivos; 2. de fazer convergir contrários, por um lado, na exigência do rigor e da precisão da ciência, por outro, na espontaneidade da criação filosófica, poética. Fazer coincidir consciência e espírito é conduzir à afetividade criadora, ao conhecimento espinosista, cujo objetivo último é o encontro íntimo e contínuo entre os três planos do real: natureza, consciência e espírito.

Se até aqui toda a tentativa de descrição parece descarrilhar para um espiritualismo cósmico, é preciso então lembrar de um de seus preceitos: quanto mais profundo o ponto atingido mais forte o impulso que o reenviará à superfície. A volta será então potencializadora, inventiva, criadora, correspondendo à intensidade da força do impulso interior (da intuição filosófica) rumo à exterioridade da ciência. Apesar de diferenças constantes entre formas de operar de uma inteligência de coordenação lógica – em relação à inteligência da natureza – (enquanto aquela é mais aproveitamento, mais economia, a natureza trabalha por superabundância, sem esforço, nem atrito) - ainda assim, exercem, mutuamente, precioso auxílio na investigação da experiência. De toda forma, linha de objetividade e linha de subjetividade, de observação externa e de observação interna, convergem ao fim do processo, até sua afasia, dita a regra complementária a metodologia da intuição.

Assim, a partir das virtualidades teóricas deleuze-bergsonianas, colocam-se teoria do conhecimento e teoria da vida. Encontro onde a primeira exerce, logicamente, sua análise e crítica à Segunda, ao mesmo tempo que esta, em sua espontaneidade, simplesmente vive. Duas tendências, duas naturezas que diferem entre si, e não obstante se compõem, experimentadas no evento, através de alguns exemplares, da literatura, da filosofia, nas hipóteses de certas leis que integram uma lei mais geral, conforme à intuição filosófica[3]. Disseminados os pensamentos, teorias, fragmentos de todos os tipos, filósofos e afins, antes de uma síntese, constituem numa análise, sobre o plano de uma crítica, e à literatura, tal qual à filosofia, cabem a inter-invenção, ou seja, justamente separar a mistura impura em elementos puros. A tarefa é radicalizar, num fato dado não descobrir, mas nele inventar elementos virtuais, o que nele tende para um lado e o que tende para outros. A intuição é um método de divisão, que procura no fato da mescla (experiência, representação) o que há de direito, as tendências, o virtual. Porque sempre o que temos é um misto (tempo misturado com espaço, percepção com lembrança).

Entretanto, como pode a intuição formar um método, uma vez que este implica uma ou várias mediações (por meio de conceitos e juízos, que encadeados levam a uma conclusão), e a intuição designa ante tudo um conhecimento direto (pensamento atualmente presente no espírito)? Já de saída, caberia não confundi-la com inspiração, nem sentimento, porque como se disse, é método elaborado da filosofia.

A intuição bergson-deleuzeana busca as “condições da experiência real”, que não são nem abstratas, nem mais amplas que o condicionado, embora a tarefa da filosofia (leia-se também literatura) seja “ultrapassar a condição humana”, “abrir ao inumano ou sobre-humano”, que são as tendências virtuais que nos compõem, encontradas não à maneira de Kant, em ‘conceitos’ da experiência possível, mas em “perceptos puros” (tendência virtual que difere em natureza da lembrança)[4]. São mais presenças que sensações, daí o conhecimento i-mediato, por não estar intermediado por nenhum específico órgão de sentido.

A intuição é um ato simples, mas que “não exclui uma multiplicidade qualitativa ou virtual, algumas direções diversas em que se atualiza”, esta multiplicidade virtual é composta de elementos que diferem em natureza, e não apenas em grau ou em intensidade[5]; portanto o virtual é impuro[6].

Passado, presente, futuro são propriedades unicamente da consciência. Passado e futuro são frutos da sua imaginação, apenas o presente é consciência, real e eterno. A atenção no presente é intenção, e antecipação do futuro, virtualidade já manifesta no agora. Mas o real é virtual, o passado ou o futuro sempre presentes, atenuando ainda mais a imperceptível – e não menos insuportável – luzidez do atual. O presente, desde a matéria que o presentifica, está permeado por projeção, está imerso no mundo de imagens. Por isso a vida que vivemos é simulacro, subvida de uma outra que foi apagada junto ao real, em proveito de sua representação. Redescobrir as distintas naturezas, em graus e intensidades é reinventar a vida, refazer a cena. Discernir em si a natureza divina, abrindo para as tendências virtuais presentes no espírito, quase indistintas de um ser-eu, que só aparentemente é real.

Conforme a verdade platônica, este real aqui é o inverso do mundo real, é seu efeito secundário, sua sombra, seu duplo. Por isso tudo é re-encontro com a idéia original. Predição oracular, na qual as próprias vítimas se responsabilizam, porque se re-descobrem. A própria vontade re-deseja o que a necessidade já ordenou de outro mundo...

Mas é deste mundo, desta vida, que o filho da noite, Momo, promove o evento. Artaud-Momo é conferência auto-biográfica, proferida em Vieux-Colombier, primeira e última aparição pública de Artaud, pós-reclusão, pouco antes de sua morte. Anunciada como um "frente-a-frente por Antonin Artaud", o programa convida para careação com sobrevivente de um pós-operatório da barbárie civilizatória. Ele reserva a toda sociedade declarações pouco concordes, e reclama ao Estado, como de direito, sua tonelada de heroína que lhe foi confiscada junto à sua liberdade. O acontecimento parisiense se transforma, então, em intensa experiência interior, compartilhada por intelectuais e outros forasteiros presentes. Louis Guillaume, dentre aqueles que do evento fizeram seu relato, assim o descreve:

 

Os poucos arruaceiros que lá se encontravam calaram-se logo. Planou um silêncio angustiado Quando aquele religioso lançou ao público o que Gide chama ‘cintilações indecentes, imprecatórias e blasfemas’, ou Quando baralhava as folhas da conferência e durante longos momentos se calava com a cabeça entre as mãos, numa careta de dor. Arfávamos com ele.[7]

 

Produção aberta às forças abstratas: luz, som, magnetismo, gravidade, estridência de um corpo desmembrado. Suspenso na fábrica carnavalizante, numa maquinaria alterada em irrefreável desfuncionamento, totalmente contrário à representação da vida, Momo devolve-lhe, alegoricamente, imagens de sua origem irrepresentável. Poética de virtuais submetidos à superfície, agora, requintes de um teatro da crueldade: cena, texto, público deslocados pelo duplo espectro perpétuo de onde irradiam as forças de afetividade, procedente da virtualização do acontecimento. Dele vem a criação de pensamento de que todos participam como elementos que se contaminaram pela p®o(-)ética do ser-Momo: para quem decisão é liberdade, a performance sua necessidade, ambas porém produtos de uma consciência, material e externa.

A matéria dobra-se ao raciocínio, no que tem de decisão inteligível, é ainda produto da mente do ser, porque nada se sabe da realidade ‘em si’, dela só se apreende a refração, através das formas da faculdade determinada de perceber. No entanto, a memória pura é atividade espiritual, coextensiva à consciência, e com a colaboração de suas percepções, ela estabelece suas infinitas intensidades.

Senão, conhecer e escolher estarão sempre submetidos à intermediação, portanto suscetíveis não simplesmente a erros e falsas soluções, mas a uma ilusão imanente ao sapien que daqui para diante se arvora: eleição ou automatismo? A crítica, dessa ilusão que a inteligência sustenta, procede da intuição. Unida às outras três formas de vida, em súbita unidade, a inteligência a fim de resolver um problema se lhe auto impõe, mas cabendo ao instinto solucioná-lo, unicamente a intuição que decidirá sobre o verdadeiro e o falso, ainda que saiba dessa forma empurrar a inteligência contra si mesma. Então, a idéia verdadeira mostra sua própria gênese – a verdade é intrínseca à idéia, não extrínseca. A verdade se manifesta nas idéias, é sua qualidade, não das coisas, é o seu absoluto, o real absoluto contatado pela intuição. A mente é simples instrumento de manifestação da Mente Criadora.

 
Intuição política da poética

 

A presença da poética no teatro de Artaud, em sua pureza original, carnavaliza as formas hegemônicas aderidas ao ser e suas práticas. No exercício da liberdade, o arlequim se põe contra vulgatas do pensamento, contra manifestações panfletárias de qualquer pseudo-movimento, contra catálogos sofisticados que justificam galeria intelectual inteira. Nessa trilha, profere contra Breton, aquele que não pôde ver em seu projeto apologético, na vontade de re-insuflar história, que a experimentação não é legenda histórico-categórica, mas filosófica[8], por isso, não pode obedecer a uma voz de comando externo, que lhe grita: abandone já todas as relações de conveniência! A experimentação é ato verdadeiramente político, adogmática, anárquica, acefálica, e quantas negativas, se necessárias forem, para negar militância ao pensamento.

Momo não se agrupa em torno de pequenas causas, utopias e políticas partidárias. Como Zaratustra, não fala ao povo, mas aos celibatários, recomenda-lhes que se afastem das praças públicas. O ‘espírito livre’ (não é o do ilustrador) opõe-se ao homem das convicções, obediente unânime “contra toda pretensão particular, todo direito particular e privilégio”[9]. Reminiscência da ideologia cristã, tentar cobrir toda a vontade real, sonegar toda intuição e conhecimento de um corpo indiviso. Ameaçando, amputando a possibilidade do ser se tornar aquilo que se é. Mesmo quando a tentativa é de preservar as regras de conduta ética, inevitavelmente, acaba por se transformar em moral.

O carnaval ético-poético que Momo apresenta é sobretudo reencontro de si, choque com a própria interioridade, experiência impregnada para sempre na imaterialidade de que é feita a memória. Ato violento, entre consumação, pacto, e esgarçamento da película muito fina, que separa o fora e o dentro. Radicalmente diferindo, assim, ao ser da exceção, para o qual carnavalizar é pôr em cena os interditos (a representação) e transgressões (o corpo).[10] Condição que, sustentada pela lógica onírica, através da exceção, em última instância, só faz confirmar a regra, já pela estrutura. Momo rebate toda ilusão, parece buscar as articulações do real, através de uma percepção que imediatamente introduz na matéria, de uma memória que sem mediações, finamente, penetra no espírito. Escutemos Momo:

 

Quando a consciência extravasa do corpo não é um espírito mas esse corpo que se acende na atmosfera, se aumenta com uma parte sua que até ali esteve por utilizar.

E a consciência deixa no ar corpos que falam ao fim de cem mil anos (...)

São fenômenos elementares sem Terem em si algo mais extraordinário do que um arco-íris ou um eclipse, e se a consciência os não reconhece é porque nunca soube sair desse empirismo de covardes.

Há corpos que abandonam os corpos e passeiam na atmosfera, mas há corpos que não abandonam os corpos e passeiam com os corpos. – Tudo isso serve para dizer que não há espíritos mas há corpos e homens que conhecem esta faculdade muito normal do homem. Oculto e verdadeiro é isso, a visibilidade de mais do que o corpo que não é oculto mas uma extensão do visível e do sensível num mundo menos devassado[11].

 

Testemunho direto e espontâneo, no exemplar Van Gogh, com sua “alegria desejada e furiosa de asceta apóstata. Ele não é louco. É simples”[12] como sua intuição, associado às partículas incendiárias que compõem o plano da vida, mas que ferem a percepção ordinária. Contudo, contato com esse instante de re-conhecimento, pode ser outro, para qualquer um, por meio de um bacanal, de uma missa, de uma hybris. Mas somente no pós-festim que se é lançado para dentro da intensidade do movimento, para além da tensão daquelas forças.

Não é, pois, no estado de graça, nem em celebração comunitária, mas na ressaca do corpo que o ser híbrido intui-se, para além das fantasmagorias da realidade. Nessa força de conhecimento interno, ele continuamente se prepara para atualizá-la. Híbrido é categoria anômala que Kant descarta das vias da sua crítica[13], raça inferior, anárquica, porque é indiviso em sua exposição, de qualquer forma, na arena não importa quem profere o discurso:

 

Digo eu que os governos são uma fachada, a organização social é uma fachada, as idéias e os sentimentos são uma fachada, sob a vida aparente outra existe, e sob a consciência ainda outra, e esta outra é o mais importante: quando um ser acabou de nos falar e se afasta as coisas começam (...)

nasce aí a verdadeira consciência e, sob os contatos de olhares com ouvidos e de ouvidos com apertos de mão, existe uma outra espécie de contato, de comunicação ativa, definitiva e espontânea[14].

 

Consciência-coletiva, dela todos participam, subjetividade primeira, conseqüente das experimentações, que remonta ao primeiro estágio de conhecimento espinosista. Mas se este apresenta-se vulgar ao discurso científico, é apenas ordinário ao Momo, por ainda pertencer ao círculo das conjecturas racionais[15]. Processo realizado pelo sentido comum, que não crê na dualidade da consciência e das coisas, ele se instala em mundo intermediário, entre as coisas opacas e as representações, mantém relação direta com o mecanismo da ação-reação, uma vez que conhece a falta de finalidade no universo, isto é, ele é tal como se apresenta, sem razão nem meta.

No entanto, a intuição não provém daí, é lucidez exacerbante, e com ela transborda o admissível, mal suportando a fulguração tal como se lhe apresenta. A sociedade, pelo seu lado, não suporta seu emissário, e tenta inocular no corpo da vítima a lógica anatômica do homem moderno: viver a não ser como possuído[16], alienado no senso comum. Preso a políticas de resultado: reconhecimento, estabilidade, pragmatismo, ideais do eu. Estrangulamento da heterogeneidade da vida.Mas mesmo o produto de um composto de inconsciência e alienação, percebe que as coisas não vão bem.

E é através de um fragmento – de texto, do corpo, da atmosfera – que se pode tomar consciência de um tempo descontínuo, de um pensamento do corpo não mediado, não terapêutico, e sim qualitativamente multiplicado.

 

A consciência extravasa do corpo e vive no ar, e para não vermos temos de ser realmente cegos, idiotas, desprezíveis, homens a soldo ou mentirosos. Toda a gente não sabe isto mas toda a gente o soube mais ou menos por instantes, e toda gente se prepara agora pouco ou muito para fazê-lo[17]

 

 

Ressaca política

 

Portanto, o mecanismo utilizado contra alienígenas do pensamento, passa pela exclusão do tipo seqüestro de corpos, para afinal se reduzir ao denominador de uma lógica comum, única. Como então recuperar uma dimensão constituída por categorias afetivas do poder, do tipo incitar, suscitar; contra a instituída – instância dura, composta de categorias formais do saber, do tipo educar, curar, punir?

Fala-se aqui em ressaca. Intensidade do “day-after” da orgia. Ceticismo que em política supõe: tanto a estrondosa queda do Muro, como o pós-maio onde começou a ruir (aos poucos, silenciosamente). Ressaca: o nada de acreditar; crítica nada do nada, niilismo que nos faz depararmos com o só mercado. Trocando em miúdos, modo de produção de subjetividades idênticas e individualizantes, quadriculador, amputador de solidariedades pelo descrédito de qualquer bom, de qualquer belo.

Re-citando o filósofo:

 

Por um bom tempo coube à loucura ou à literatura, mas também em parte à revolução, encarnarem a promessa de um fora absoluto. Isto mudou inteiramente. A meu ver, a claustrofobia política contemporânea é só um indício, entre muitos outros, de uma situação para qual parecemos desarmados, a saber: a de um pensamento sem fora num mundo sem exterioridade.[18]

 

Da constatação pessimista da clausura do Fora, ou seja, o Fora se esvaindo, se perdendo do âmbito da loucura, da escritura, a um reencontro solar com a utopia. Explícita opção pela política: recolocar o Fora como uma espécie de projeto político, não existindo política sem coletivo, não existindo política sem utopia, o Fora surgiria assim como um inaudito espelho dialético, o fora como metáfora da fronteira. Re-introduzir a identidade não é introduzir um Estado de subjetivação? Uma captura do desejo pela Fé?

Conforme a moral impossível de Nietzsche, como reconverter a intenção em intensidade? Lançando mão talvez de um sub-produto utópico, aquele que Foucault chamou de programa vazio, pois valoriza a capacidade individual de preenchimento individual. Programa de intensidade, conversão que resulta em revolução da subjetividade anárquica, constituindo-se autonomamente por meios de práticas (ou tecnologias), ‘cuidado de si’, relação intensa consigo mesmo, um pressuposto da vida e luta políticas. Uma libertação dos tipos de individuação e subjetivação ligadas ao Estado (das coisas, puro sentir). Trata-se de constituir uma nova imagem ou de destruir a possibilidade de criar imagens, de um pensar sem imagens, o que quer dizer, da impossibilidade de subordinar o pensamento a um modelo verdadeiro, correto ou justo?

A (re)captura aparece como destino e fracasso. Para finalizar, uma micro-política a recolocar-nos no principio do ceticismo, depois de uma breve primavera utópica, da razão. Âmago, miragem da política. Fugaz clandestino utópico. Golpe que termina com o Estado, repentismo do externo que não alucina, in-tenciona pensar-se desde fora da razão. Sem loucura mas sem calma.



[1] Apud LALANDE, A. Vocabulário Técnico y Crítico de la Filosofia, V. I, p. 706.

[2] BERGSON, Henri. Le Penseé et le Mouvant. p. 1272-1273.

[3] Cf. DELEUZE, Gilles. El Bergsonismo, Cap. I. Trad. Luis Ferrero Carracedo. Madrid: Ediciones Cátedra, 1987.

[4] DELEUZE, Gilles. El Bergsonismo, respectivamente pp. 24, 25, 27. Enquanto para Kant a intuição ;e representação singular que se refere imediatamente a um objeto da experiência, e tem sua fonte na sensibilidade; o conceito, é representação que se refere imediatamente a um objeto de experiência por meio de outras representações, sua fonte é o entendimento. Cf. A Filosofia Crítica de Kant, p. 15.

[5] BERGSON, Henri. A Evolução Criadora. Trad. Maria Luiza P. Torres. Madrid: Colección Austral, 1982, p. 286.

[6] DELEUZE, Gilles. El Bergsonismo, p. 15.

[7] GUILLAUME, Louis. Tour de Feu 112, dezembro de 1971.

[8] DELEUZE, Gilles. O que é Filosofia? Trad. Bento Prado Jr e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: ed. 34, 1992, p. 143.

[9] NIETSZCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal, p. 202.

[10] KRISTEVA, Julia. Introdução à Semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 77-8.

[11] ARTAUD, Antonin. História Vivida de Artaud-Momo. Lisboa: Hiena editora, 1995. Prefácio de Alain e Odette VIRMAUX, de onde retiro informações sobre a conferência. As citações subseqüentes são retiradas da página 47 em diante.

[12] FAURE, Élire. A Arte Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1991, p. 399.

[13] DELEUZE, Gilles. O que é Filosofia? p. 141.

[14] ARTAUD, Antonin. História Vivida de Artaud-Momo. Op. Cit.

[15] BERGSON, Henri. A Evolução Criadora, p. 172.

[16] ARTAUD, Antonin. Escritos de Antonin Artaud. “Post-Scriptm”. 3 ed. Porto Alegre: L&PM, 1986, p 135.

[17] ARTAUD, Antonin. História Vivida de Artaud-Momo. Op. Cit.

[18] Comunicação de Peter PÁL PELBART, “Da clausura do fora ao fora da clausura”, apresentada na ocasião do Encontros Híbridos, dez/1999, UFSC, Florianópolis, (texto digit.).